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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Ignorância soberana

Censura sim! Proibir Os cem melhores contos brasileiros do século de ser distribuído a alunos das escolas públicas do Estado de São Paulo não pode ter outro nome. Censura sim! Essa temível assombração do passado querendo assombrar-nos de novo.

Os proibidores não entendem nada de literatura, não são especialistas da área, e se acham no direito de dizer o que adolescentes devem ou não ler. Será que eles opinariam também em decisões médicas? Quem sabe eles não têm o poder de decidir quem vive ou quem morre? Por enquanto, eles contentam-se em censurar um livro que contém palavrões e descrições de sexo, segundo alguns, “obscenas”, “inapropriadas”.

Segundo declarações de envolvidos, parece que tudo começou com a reclamação de alguns pais “descontentes” com a distribuição do livro. Pois bem, os mesmos filhos desses pais que reclamaram, provavelmente, jogam seus videogames ultraviolentos sem que seus pais peçam que se proíba a venda de videogames. E acessam conteúdos “proibidos para menores” na internet! Será que esses pais desconhecem que seus filhos acessam conteúdos pornográficos na rede, com homens e mulheres gozando loucamente de todas as formas possíveis? É, deve ser melhor para o adolescente masturbar-se diante do computador ao invés de discutir, juntamente com o professor, a realidade, vinculada ao sexo ou não. Para os pais a favor da censura, talvez seja melhor passear com seus filhos pela rua e ouvir dos carros, com seus sons altos e indelicados, o refrão “Passa nela, passa o pau na cara dela” e fingir que não estão ouvindo nada. Quem sabe censurar o funk? É, deve ser o próximo passo. Ah, prender a vizinha que fala palavrão o tempo todo pode ser uma boa ideia.

Por outro lado, também é verdade que muitos professores do ensino público, infelizmente, deviam mas não entendem nada de literatura, tendo a mesma visão deturpada dos censores do livro. Afinal, quando a escola pública terá professores preparados? A resposta parece-me simples: quando essa escola pagar um melhor salário e oferecer condições dignas de trabalho; quando houver uma valorização do direito à educação, ou seja, uma seleção de alunos dispostos a estudar e a expulsão daqueles que não valorizam o seu direito; quando, enfim, o conhecimento for o principal objetivo da escola pública. Mas quando isso acontecerá? Sinto dizer que gerações e gerações de ignorantes escolarizados percorrerão por muito tempo o solo deste país.

O que vemos, normalmente, na realidade da escola pública, são pais muito pouco comprometidos com a educação de seus filhos e, principalmente, com a disciplina. Seus filhos, reizinhos mimados, podem fazer tudo, podem ir à aula para “zuar”, desrespeitar professores e colegas, causar tumulto, mas não podem ter acesso à boa literatura porque seus pais ignorantes não sabem lidar com a sexualidade e são apoiados por detentores do poder do veto que não entendem de literatura e veem a sexualidade como algo “errado” em um país em que meninas de dez ou doze anos engravidam e/ou são contaminadas pelo vírus HIV. Está aí um ponto positivo nisso tudo: pelo menos não vão poder culpar Os cem melhores contos brasileiros do século por essas mazelas sociais que esses senhores são incapazes de solucionar, já que, ao invés de cuidarem de assuntos dos quais realmente entendem (ou deviam), se acham no direito de contrariar a decisão de mestres e doutores em Literatura e também de mestres e doutores em Pedagogia. Como diz a canção, se não me engano é um funk: “Cada um no seu quadrado”. Tem gente invadinho o “quadrado” alheio e tomando decisões autoritárias sobre assuntos que desconhecem.

A ignorância, em nosso país, é sempre soberana.

Warley Matias de Souza.

sábado, 25 de junho de 2011

Escola pública: a prostituta disfarçada

Aqui, no estado de Minas Gerais, a escola pública dos ensinos fundamental e médio, em sua maioria, é um caos.

Sou professor de Língua Espanhola, Língua Portuguesa e Literatura. Entrei na escola pública sem ilusões, querendo ver o que acontecia por trás daqueles muros. E também porque acho que um professor, para ser bom, precisa passar por ela e, caso o sistema educacional não o expulse, ficar ali e fazer um pouco por nosso país. Infelizmente, o sistema educacional mineiro e brasileiro é perverso, expulsa grande parte dos bons professores que poderiam estar em escolas públicas. Nos corredores dessas escolas, ouvindo as lamentações justificadas dos meus colegas professores, vi a realidade que o governo estadual quer “maquiar”. Aliás, a escola pública do estado de Minas Gerais é uma grande prostituta disfarçada de “mulher honesta”.

Existe no estado de Minas Gerais, não sei se em outros estados também, uma coisa chamada PAV — Projeto de Aceleração da Aprendizagem “Acelerar para Vencer”. Alguns professores já o chamam “carinhosamente” de “PAVoroso”. E quando leio esse “Acelerar para Vencer”, tenho vontade de rir. Quem criou esse projeto devia estar cheio de boas intenções; mas, como diz o ditado, “de boas intenções o inferno está cheio”. Explicarei, a quem interessar, em que consiste esse projeto, segundo o que ouvi de colegas que trabalham com turmas do gênero. Serei objetivo e realista: no PAV, ao que parece, são amontoados desde alunos com dificuldades de aprendizado até, e principalmente, alunos com problemas disciplinares. Os professores tentam dar aula; mas a indisciplina de alunos que vão à escola porque não têm coisa melhor para fazer impede que a aula seja dada; nessas condições, os que têm dificuldade não têm nem chance de uma atenção especial do professor, já que conter a indisciplina toma todo o tempo do mesmo. Na verdade, o professor acaba se transformando em uma babá, como se trabalhasse em uma creche, tristemente.

Vejam bem, professores fazem anos de faculdade, umas boas outras ruins, que seja, para serem babás. No final do ano, todos esses alunos devem ser aprovados, mesmo sem saberem nada, segundo recomendações das escolas, que, obviamente, são orientadas por esferas superiores. Afinal, o importante são os números. Os professores são “obrigados” a “maquiar” os diários, colocar presença para quem nunca compareceu, dar a média para quem nunca fez sequer um exercício.

A outra realidade são os alunos de ensino médio também sem nenhum interesse, totalmente sem limites, que impedem também que o professor dê aula. Na minha primeira experiência com esses alunos, a supervisora, muito gentilmente, digo isso sem nenhuma ironia, informou-me que os alunos podiam ser reprovados, mas que, quando o(a) supervisor(a) (ou inspetor(a)), não sei ao certo, da superintendência viesse até a escola e visse as notas vermelhas, ele(a) culparia o(a) professor(a). Mais números, alunos que terão o ensino médio para conseguirem os seus subempregos, mas que não conseguem compreender uma página de um texto simples.

A outra ficção do estado de Minas Gerais é a EJA (Educação de Jovens e Adultos). Na EJA, os alunos também não são reprovados. Normalmente, são alunos interessados, a maioria é composta de pessoas adultas; mas a disparidade entre elas é tão grande que você tem a impressão de que existem turmas diferentes em uma mesma sala de aula. Você precisa então dar coisas mais avançadas para aqueles mais avançados e coisas completamente infantilizadas para os “mais lentos”, o que pode levar ao desestímulo de um grupo ou de outro. É quase um consenso, nas escolas, que a EJA só existe para aumentar a autoestima daquelas pessoas, o conhecimento não é prioridade.

Aliás, o conhecimento nunca é prioridade na escola pública. Se fosse, as escolas públicas selecionariam seus alunos. Uma prova de seleção faria todas as escolas entrarem nos eixos, pois quem faz a escola é o aluno, todos sabemos disso. Alunos interessados fariam a escola pública finalmente ter qualidade. E tal seleção valorizaria o ensino. A educação é um direito sim, mas um direito que está sendo banalizado. É preciso valorizar esse direito. Do contrário, nem aqueles que poderiam avançar e evoluir, como já acontece, poderão fazer isso, pois a escola perde tanto tempo tentando lidar com o problema, que deixa a solução completamente de lado; sim, estou falando de pessoas.

Outra coisa que seria muito interessante nas escolas é dar a cada aluno o conhecimento no tempo certo, e isso não implica em discriminação, muito pelo contrário, essa é a verdadeira inclusão, pois aqueles que têm dificuldades de aprendizado e estão atrasados merecem uma atenção especial, pois todos sabemos que podem aprender, mas em um tempo diferente dos mais avançados. É cruel com essas pessoas jogá-las numa sala de aula e não lhes dar o que elas precisam de fato, o conhecimento no tempo certo.

O sistema é cruel e resistente, como uma escura areia movediça, que vai te sugando. Toda a semana, eu reflito sobre isso e comprometo-me a não entrar no “esquema”. Até quando vou resistir? Serei expulso da escola pública? O tempo dirá. Não quero “maquiar” diário; se a escola quiser fazê-lo, que assuma a responsabilidade, não quero assinar meu nome sob uma mentira. Mas, no Brasil, a ética é só uma palavra vazia.

Está ocorrendo mais uma greve de professores; como sempre, uma greve justa. Espero que os professores não façam mais greve só por salários; mas também para acabarem com o PAV, para uma reformulação da EJA e para um programa disciplinar efetivo e eficaz nas escolas públicas, para uma melhor seleção, não só de professores, mas também de alunos e para o fim da divulgação de números que não correspondem com a realidade; pois se o governo divulgar que 90% dos mineiros terminaram o ensino médio em escolas públicas, podem ter certeza de que, pensando de forma otimista, somente uns 10% deles conseguem entender o que leem ou conseguem escrever textos com o mínimo de coerência e coesão. Resumindo, a educação pública dos ensinos fundamental e médio, aqui, é uma grande ficção.

Já faz um tempo que venho batendo na tecla de que estamos entrando em uma nova Idade Média. A forte influência das religiões na política em todo o mundo é um dos sinais. A educação é outro sinal alarmante, “emburrecer” as pessoas é um ótimo caminho para mergulhá-las nas trevas da ignorância e permitir que alguns poucos dominem.

E, para aqueles que acreditam no Apocalipse, bem-vindos a ele!

Warley Matias de Souza.

domingo, 8 de maio de 2011

Antes tarde do que nunca

Percebi que a imprensa brasileira, de uma hora para outra, resolveu divulgar, e mesmo criticar, os crimes de ódio. Até mesmo emissoras de televisão ligadas a grupos religiosos, que aliás são os maiores inimigos do PL 122/ 2006, que torna a homofobia um crime, entraram na luta contra a homofobia, numa contradição que me faz desconfiar.

Tudo está ainda meio discreto; mas o silêncio que a imprensa insistia em manter diante da homofobia parece estar sendo quebrado. Como não nasci ontem e “quando a esmola é demais, o santo desconfia”, fico imaginando quais os interesses por trás dessa onda de “generosidade” da imprensa. Devo estar com meu raciocínio e minha sensibilidade meio debilitados, pois ainda não consegui perceber as verdadeiras e segundas intenções.

Melhor, então, aproveitar essa onda e torcer para que ela acelere a aprovação do PL 122/ 2006, que está no Senado, sendo combatido pelos grupos religiosos. Pois os homofóbicos começam a mostrar as caras diante de uma possível aprovação da lei e destilam o seu veneno, mostrando uma forte ignorância em relação ao tema.

Os crimes de ódio, bárbaros e quase nunca punidos, ocorrem no Brasil desde sempre. A imprensa, até o momento, preferia não polemizar diante de tanta violência, diante de tanta barbárie. Tão pouco isentos diante de tantos assuntos, quando a questão era homofobia, os apresentadores de telejornais emitiam as notícias como se seus rostos não tivessem expressões faciais. Diante de outros crimes, esboçavam o seu lamento; mas diante dos crimes de ódio, preferiam a máscara da isenção, o que nos fazia entender que, talvez, estivessem a favor de que homossexuais fossem assassinados.

De qualquer forma, se a imprensa brasileira resolveu mesmo corrigir os seus erros do passado e pretende ajudar na aprovação do PL 122/ 2006, vamos aproveitar sua “generosidade”, pois apoio a causas justas é sempre bem-vindo.

Warley Matias de Souza.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um professor e sua ética

Em 2008, fiz um concurso da prefeitura da cidade de Sete Lagoas, Minas Gerais, lugar onde moro. Cargo: Professor PII Português/ Literatura. O edital anunciava três vagas. Passei em segundo lugar. Nunca fui convocado. Como estava fazendo o meu mestrado e não conseguiria conciliar as duas coisas, não fui “em busca dos meus direitos”. Porém, se anunciam três vagas em um edital e você é o segundo classificado e não é convocado, isso tem um nome; vocês, leitores espertos, sabem que nome é esse, não preciso ser tão explícito.

Terminado o mestrado, fiz pela internet a inscrição para contratação de professores para o ano de 2011 para as escolas municipais da cidade. Minha classificação foi a de número cem, já que eu não tinha horas trabalhadas como professor contratado pelo município. Na Resolução, diziam que os aprovados no último concurso tinham a preferência. Houve, então, a primeira chamada em fevereiro. Não cumprindo o que estava no papel, o que eu já esperava, iniciaram a chamada pela lista de classificados pela internet e não pela lista de classificados no concurso. Calei-me, já que não tinha a intenção de promover uma “situação”, como a maioria dos brasileiros, que adoram o chamado “barraco”. Soube mais tarde que, na chamada seguinte, os professores de Matemática que haviam sido aprovados no último concurso exigiram os seus direitos, tomando o lugar de alguns classificados pela internet que tinham horas de trabalho como contratados.

Na semana seguinte, fui até a Secretaria de Educação do município e questionei o fato de haver sido aprovado em segundo lugar em um concurso cujo edital anunciava três vagas e não haver sido convocado. Com uma imparcialidade forçada, a senhora responsável informou-me que o concurso havia sido prorrogado, mas que não havia chances de convocação no ano de 2011. Então, confirmei com ela se eu tinha preferência nas chamadas, e ela disse que sim. Dias depois, uma nova chamada para Português. Dessa vez, a primeira coisa que fizeram foi perguntar quem havia sido aprovado no último concurso. Entre os presentes, somente eu.

Obrigatoriamente, eu deveria pegar aulas em duas escolas diferentes, totalizando um total de treze aulas. Em uma escola, num bairro x, seriam 4 aulas, e em outra escola, num bairro y, seriam 9 aulas. Detalhe, nas duas escolas, havia aulas na parte da manhã, eu deveria entrar em contato com as duas e negociar horários. E, em uma dessas escolas, haveria também horários no turno da noite. Assinei uns papéis, e me deram dois encaminhamentos com os nomes das escolas, em que havia a data de apresentação nas mesmas, que seria no dia seguinte. Além disso, eu deveria procurar o setor de RH da prefeitura, onde me dariam instruções.

No setor de RH, deram-me uma lista de documentos que eu deveria xerocar e entregar naquele mesmo lugar, um encaminhamento para abrir uma conta para recebimento de salário no banco Itaú e, além disso, marcaram uma data para uma tal “perícia”, ou seja, o exame admissional, “a partir” de 7:00 até as 12:00.

Como não havia nenhuma informação sobre os endereços das escolas, busquei-os na internet, descobri também quais os ônibus que me levariam até elas e, na tarde daquele dia, um dia antes da data oficial de apresentação, fui até as escolas, já que não sou Deus e não consigo estar presente em dois lugares ao mesmo tempo.

Na escola que me oferecia quatro aulas, três eram de Literatura e uma de Artes. E na escola com nove aulas, eram cinco aulas de Português e quatro de Artes. Já comecei questionando e dizendo que não era habilitado para dar aulas de Artes. De uma diretora, recebi o seguinte incentivo: “Não deve ser tão difícil assim”. Como se essa fosse a questão. A diretora da outra escola explicou-me que era uma exigência da secretaria haver uma aula de Artes para cada turma; mas que não havia gente habilitada, por isso, estavam contratando os formados em Letras.

Fiz mestrado em literatura e, por isso, refleti um pouco sobre o que é arte. Então, quem sabe, talvez... Resolvi experimentar. No entanto, algo dentro de mim incomodava-me. Logo descobri que era a famosa e tão pouco fora de moda ética. E todos com quem eu comentava o fato, com raríssimas exceções, achavam natural um professor de Português e Literatura dar aulas de Artes. É, a ética é algo difícil de os brasileiros entenderem, ao que tudo indica.

Dei quatro aulas, sendo duas delas de Artes, e desisti. Antes, porém, compareci no local da tal “perícia”, na hora marcada. Ao chegar lá, os portões estavam trancados, havia gente fora e dentro. Os de dentro, vitoriosos, olhavam com certa perversidade para os de fora, entre eles eu. Havia um aviso no portão de grades dizendo que só seriam distribuídas vinte senhas por dia. Dá para acreditar? Havia pessoas madrugando na fila, chegando às quatro da manhã. Pensei comigo mesmo: “Não preciso disso”.

E, só para terminar, gostaria de falar da minha experiência de professor com os adolescentes, já que eu havia apenas dado aulas para adultos até o momento. Não me surpreendi com o que vi, era esperado. Mas tive pena daqueles adolescentes. Eles tinham preguiça de pensar; com exceções, é claro, nem tudo está perdido. Enquanto eu falava do sentido do ensino de literatura, da questão de sermos críticos, de sermos cidadãos e não burrinhos de carga, uma menina com um olhar perdido lamentou-se, dizendo que era tudo muito chato e queria fazer uma “atividade”. Vejam bem como estão sendo bem-sucedidos aqueles que se empenham para “emburrecer” as pessoas e evitar a formação de cidadãos. “Atividade”, obedecer, atuar e jamais pensar ou questionar. Esperança ainda há, pois outro aluno ergueu a voz e disse que gostava de aulas assim, fazendo o “projeto de escravinha” do sistema se calar.

Se as coisas continuarem assim, o futuro deste país, muito provavelmente, será tenebroso. Um país em que as pessoas não conseguem entender a importância e o significado da ética, em que nossos adolescentes são estimulados a não pensar e que pessoas de uma Secretaria de Educação decidem que formados em Letras podem dar aula de Artes.

Parece-me óbvio que, se eu quisesse dar aula de Artes, teria feito Belas Artes ou Artes Plásticas ou qualquer outra faculdade que me habilitasse, de fato, a dar esse tipo de disciplina. Mas, incrivelmente, parece que somente eu consigo enxergar isso.

Warley Matias de Souza.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A vitória da boçalidade

Ah, Brasil! Em nosso país, o conhecimento não tem valor. Tudo aqui se pauta pela velha e tradicional “experiência”. Não importa se você fez faculdade em uma universidade conceituada, se tem trocentos pós-doutorados, se fala cinco línguas fluentemente. Quando você participa de uma seleção, tudo isso é nada diante da “experiência”.

Essa forma obtusa de selecionar trabalhadores, no Brasil, é resquício de um país escravocrata que, depois de mais de cento e vinte anos, ainda não conseguiu desvencilhar a figura do trabalhador da figura do escravo. Nesse sentido, é preferível um sujeito “experiente”, o que pode ser lido como “obediente”, a um indivíduo com autonomia. A experiência indica que a pessoa está adaptada ao cargo que ocupará, quer dizer, tem pouquíssimas chances de dar dor de cabeça aos patrões. A autonomia, em nosso país, é vista como um defeito, pois pessoas muito livres nunca aceitam ordens e condições injustas. E, digamos de passagem, temos uma longa tradição de injustiças em nosso lindo e ensolarado país.

E, então, todos se perguntam: Por que a educação em nosso país é tão ruim? Porque nossa educação cria escravinhos do sistema e não cidadãos autônomos. E isso já começa na seleção dos professores que educarão nossas crianças e jovens. Qualquer boçal hoje ocupa um cargo de professor no sistema público.

Estamos em fase de chamadas nas escolas públicas do Estado de Minas Gerais. E “experiência” ainda vale mais do que o conhecimento de um mestre, de um doutor, de um pós-doutor. É como se os alunos de nossas escolas públicas não merecessem mais do que professores desesperados, em busca de um salário de fome para sobreviver e, de nenhuma forma, comprometidos com a educação, exercendo sua profissão apenas porque lhes falta opção e não porque escolheram atuar na educação.

Em nosso país, títulos “comprados” valem mais do que aqueles conseguidos por mérito e esforço. Frutos de faculdades medíocres são preferidos em detrimento de professores que se graduaram ou pós-graduaram em faculdades de renome, respeitadas nacional e, muitas vezes, mundialmente.

Nessas idas e vindas, por corredores de escolas, ouvimos as histórias mais extravagantes. Desde professores de Espanhol e Inglês que não sabem nem uma língua e nem outra, até professores da área de exatas dando aula na área de humanas ou vice-versa. É isso que ouvimos de nossos colegas em trânsito, muitos deles experientes, na busca de um lugar ao sol escaldante de nosso país tropical.

É fácil pensar que eles são exagerados, mentirosos e boateiros. É mais fácil tapar os olhos e fazer de conta que tudo está bem. Afinal de contas, o carnaval está próximo, e não vale a pena se estressar por tão pouca coisa.

Warley Matias de Souza.

sábado, 17 de julho de 2010

O poder do educador

Infelizmente, grande parte dos professores brasileiros talvez não tenha consciência de sua real importância em sala de aula, do poder de mudança que tem em suas mãos.

Esse poder parece assustar os governantes. Prova disso é a forma como o professor de escolas públicas é tratado em nosso país. Com baixos salários, péssimas condições de trabalho e sem nenhuma condição de investirem em sua formação. Aliás, o professor com formação mínima parece ser o tipo mais comum nas escolas públicas brasileiras. Afinal, sem um bom mestrado ou doutorado, esses professores não podem exigir muito do poder público.

São muitos os professores que exercem sua função sem a mínima, digamos, vocação. Infelizmente, é muito comum pessoas fazerem faculdades de licenciatura porque entendem que é mais fácil de entrar. Já ingressam nas universidades dizendo-se incapazes; do contrário, segundo a lógica delas, fariam Direito ou Medicina, como a maioria dos alienados e privilegiados de determinada classe média. Poucos são aqueles que se orgulham de fazer Letras ou Matemática, por exemplo, que se orgulham porque nunca desejaram fazer outra coisa na vida, porque entendem a importância desse tipo de formação, porque têm almas de pesquisadores ou educadores, porque têm espíritos inquietos. São poucos, lamentavelmente.

Temos, em nosso país, muitos professores, indivíduos que exercem sua função, almejando o seu salário mensal para não morrerem de fome. Mas poucos são os verdadeiros educadores, pessoas conscientes e contrárias à educação repressora vigente em nosso país, educação que não forma seres pensantes, mas burros de carga aptos ao trabalho.

Alguém deve estar ganhando com toda essa situação lamentável, não é mesmo? Do contrário, os educadores seriam mais valorizados, e absurdos como a existência de câmeras em salas de aula não existiriam. Querem controlar o educador, querem reprimi-lo, querem impedir que ele exerça o seu poder de transformação, de mudança.

Aliás, aquele que defende uma educação realmente crítica normalmente é boicotado pelos próprios colegas, que acabam servindo como delatores, espiões do sistema, que não permitem que a educação seja, enfim, a fomentadora da mudança, a conscientizadora das mentes cidadãs.

Warley Matias de Souza.

sábado, 10 de julho de 2010

Deveres democráticos

Vivemos em um país em que o sentido de democracia não é entendido plenamente, um país ainda com ranço de ditadura militar, um país que parece não ter ainda aprendido a aceitar a liberdade de seus cidadãos.

Aqui, temos direitos que não são respeitados, como o direito à saúde, o direito à educação e o direito à segurança. E quando falo de direito, digo direito a uma saúde, educação e segurança eficientes e de qualidade, o que não temos neste país, por mais que os governos queiram nos enganar com propagandas parciais e eleitoreiras no rádio e na televisão.

Por outro lado, somos obrigados a votar, a trabalhar como mesários nas eleições, caso sejamos convocados, e, no caso dos homens, somos obrigados a nos alistar no serviço militar ao completar dezoito anos. E, se não nos alistamos, não poderemos prestar concurso público, tirar passaporte, ser matriculado em universidade, por exemplo, além de ter certa dificuldade em conseguir emprego de carteira assinada, pelo que dizem por aí.

É verdade que ninguém vai te matar se você não cumprir esses deveres obrigatórios; mas, como uma criança ignorante de seus deveres, se não votar e nem justificar sua ausência ou pagar multa, você não poderá inscrever-se em concurso público, não receberá o salário de um mês se for funcionário público, não poderá participar de concorrência pública, não poderá obter empréstimo em instituição pública, nem tirar passaporte, carteira de identidade ou CPF, nem matricular-se ou renovar matrícula em estabelecimento “de ensino oficial ou fiscalizado pelo Governo”.

E vejam só isto, tirado do site do TRE de Minas na data de hoje:

As eleições são de interesse de toda a comunidade e a convocação de milhares de pessoas anônimas contribui para a transparência do processo. O trabalho dos Mesários, juntamente com o dos funcionários da Justiça Eleitoral, garante a realização das eleições e que o pleito transcorra normalmente. Pela sua importância, após a convocação, o comparecimento do mesário para o desempenho da função é obrigatório. O não comparecimento, caso aconteça e não for plenamente justificável no prazo legal, constitui crime de desobediência e sujeita, ainda, o Mesário a processo criminal e a multa a ser arbitrada pelo Juiz Eleitoral.

Coloquei em negrito aquilo que, em bom português do Brasil, me leva a dizer: “Que absurdo!”. E depois querem nos convencer de que somos livres e vivemos em uma democracia.

Os nossos direitos não são respeitados como deveriam; mas somos obrigados a fazer coisas que não queremos. Somos tratados como bestas sem consciência que precisam ser forçadas a agir.

Em nosso país, é mais eficiente obrigar do que conscientizar. Até porque conscientizar implica em dar ao cidadão o poder de separar o joio do trigo, o que, ao que parece, não interessa muito ao poder. Pois, se isso acontecer, os cidadãos exigirão que seus direitos sejam respeitados e questionarão os seus deveres.

Aqui, confundem patriotismo com torcida de futebol, talvez porque só possam entender o patriotismo aqueles que são realmente livres e que tenham motivo para amar o seu país. Aliás, por falar em futebol, voltamos à Roma antiga, que continha a revolta do povo dando-lhe pão e circo. E circo, em nosso país, é o que não falta, enganando a fome e fazendo-nos esquecer da falta de pão.

Já vivemos em uma democracia há mais de duas décadas. Contudo, de alguma forma, não a vivemos plenamente.

Warley Matias de Souza.

domingo, 25 de abril de 2010

Nabo em terra fértil

Às vezes sinto certo cansaço. De que adianta falar aquilo que as pessoas não querem ouvir nem enxergar? Afinal de contas, o homem parece não ter jeito. É sempre a mesma coisa; pessoas morrem, pessoas nascem, mas não conseguimos ver uma verdadeira evolução.

Ligo a televisão, e só falam de uma coisa. Pedofilia. O tempo inteiro. Os pedófilos parecem estar brotando como nabo em terra fértil. Mas, como a minha voz será sempre dissonante, não estou aqui para condená-los, já que juízes e carrascos também brotam como nabo em terra fértil.

O clima de Inquisição tomou conta de nossa sociedade. Na CPI da Pedofilia, perguntaram a um padre, supostamente pedófilo, em tom acusativo:

— O senhor é homossexual?

Insistiram na pergunta até ele confessar.

Afinal, estão investigando casos de pedofilia ou de homossexualismo?

Isso me faz lembrar o filme Filadélfia, em que o personagem Andrew (se não me engano), interpretado por Tom Hanks, durante a ação judicial que ele move contra a empresa que o demitiu por ele ser portador do HIV, é visivelmente julgado no tribunal por ser gay.

Mas, voltando à nossa não menos triste realidade, o mesmo padre que confessou o seu “pecado” de ser homossexual, delatou outros padres, supostamente pedófilos, para ser beneficiado com a “delação premiada”. E isso também me faz lembrar outra coisa, a Inquisição, em que sodomitas eram levados a delatar outros sodomitas.

Um dos acusados, um monsenhor de 83 anos, foi exposto em um vídeo em que fazia sexo com um ex-coroinha, diante da cara de nojo daqueles que assistiam. Mas esse vídeo não deveria ser uma prova restrita, vista apenas pelos jurados, juízes etc. envolvidos num eventual julgamento?

O que fica bem claro é que esses padres estão sendo acusados e antecipadamente condenados não apenas por serem pedófilos; mas, principalmente, por serem homossexuais. Aliás, é interessante observar como os casos de pedofilia masculina, e principalmente de pedofilia homossexual masculina, atraem a atenção da mídia. Será que não existem mulheres pedófilas? Será que não existem freiras pedófilas? Ou será que a sociedade acha normal os meninos serem iniciados por mulheres mais velhas? O fato é que quando direcionarem o dedo para acusar as mulheres, podem ter certeza, as mulheres pedófilas homossexuais serão as primeiras. As pedófilas heterossexuais talvez permaneçam no seu posto privilegiado de pedagogas do prazer; afinal, isso faz parte da nossa cultura machista.

Além dos casos da Igreja, houve também o caso de um homem acusado de pedofilia e de assassinar garotos; um homem evangélico, casado, pai, diagnosticado como psicopata, perturbado, que se enforcou ou foi enforcado na cadeia, o que ainda será apurado. Afinal, o Estado não protege nem os cidadãos encarcerados e nem os cidadãos supostamente livres.

Quanta confusão! A Igreja tentando sair limpa da crise, disposta a sacrificar seus padres pedófilos para isentar-se da responsabilidade. O Estado sem condições de proteger os acusados da ira popular. Políticos levantando a bandeira contra a pedofilia para se elegerem. Os acusadores surgindo de todos os lugares. E você já não sabe (ou sabe) se estão julgando a pedofilia ou as relações ditas homossexuais. Além disso, psiquiatras estão dizendo que a pedofilia é uma doença (não quero entrar no mérito da questão). Mas, como sempre, os psiquiatras só são ouvidos quando isso interessa.

O fato é que ninguém quer discutir o assunto com seriedade. Como disse um entrevistado do povo um dia desses: “O pedófilo deve ser punido e ponto-final”. Ele reflete a nossa sociedade, que escolhe sempre o caminho mais curto. Tudo que essa questão não está relacionada é a um ponto-final, mas a muitas reticências.

Fico pensando, se num futuro distante, as pessoas lerão esses inquéritos e verão arquivos de vídeo, documentos históricos, da mesma forma que hoje vemos os detalhes da Inquisição em documentos amarelados pelo tempo. Não podemos saber. Resta a esperança de que eles possam ver as coisas que nós não podemos ver ou entender agora. Mas, talvez, eu esteja sendo otimista demais.

Só o que sei é que há muitas vítimas merecendo reparação e conforto; mas que, também, há muitos monstros sendo criados por pessoas ignorantes ou sem escrúpulos.

É assustador ver as fogueiras acesas e saber que a carnificina está só começando.

Warley Matias de Souza.

sábado, 24 de abril de 2010

Estupro hoje é outra coisa

Se você procurar no dicionário, verá, para a palavra “estupro”, a seguinte definição: “O crime de constranger alguém ao coito com violência ou grave ameaça; violação”. Essa definição está no minidicionário do Aurélio. Por enquanto. Pois logo ela deve ser alterada, simplesmente porque os homens que fazem as leis decidiram mudar o sentido de “estupro”.

O artigo 213, alterado pela Lei n. 12.015/ 09, definia “estupro” como sendo o ato de “constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça”. O acusado desse delito poderia sofrer pena de reclusão de seis a dez anos. Na nova redação, o artigo 213, que foi unificado ao antigo artigo 214 (referente ao “atentado violento ao pudor”), define “estupro” como sendo o ato de “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”, podendo o acusado sofrer pena de reclusão de seis a dez anos. No entanto, “se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos”, a pena de reclusão será de oito a doze anos. E temos ainda o artigo 217, que define como “estupro de vulnerável”: “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”, com pena de reclusão de oito a quinze anos. Sofrerá a mesma pena quem pratica essas ações “com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”, o que, diga-se de passagem, considera o deficiente mental como sendo uma pessoa destituída de sexualidade.

Assim, o estuprador deixa de ser apenas um homem e passa a ser “alguém”. E o estupro deixa de ser apenas a violação da vítima e passa a ser também qualquer “ato libidinoso”. No entanto, não há a definição do que a lei entende por “ato libidinoso”, o que permite todo tipo de excesso. Além disso, há também o aumento da pena de acordo com a idade da vítima, quer dizer, um combate explícito ao que andam por aí chamando de “pedofilia”. Interessante é que a lei fala de constrangimento, “constranger alguém”. Então poderíamos pensar que, se os “atos libidinosos” com um(a) adolescente, por exemplo, forem de comum acordo, não há crime. Provavelmente, um erro de redação, pois parece que as coisas não são assim.

Essa lei recente, que qualifica como estupro “atos libidinosos” praticados com/ contra crianças e adolescentes, mesmo que não haja penetração, é resultado dessa fúria sem controle contra a pedofilia. Tudo para que uma pessoa acusada por esse tipo de ato possa ser punida com anos a mais de cadeia. Quer dizer, se alguém estupra uma criança ou adolescente, no velho sentido da palavra, pegará a mesma pena que uma pessoa que acariciou a genitalha de uma criança ou de um adolescente, por exemplo.

Para pessoas com um mínimo de discernimento, é óbvio que uma coisa não é igual à outra. E igualar esses dois atos, de certa forma, ameniza aquele que, até pouco tempo, era o único estupro considerado, havendo a violação da vítima. Parece até que os danos causados pela violação são os mesmos que os danos causados pela “carícia”.

O que podemos concluir é que, talvez, essa “igualdade” seja uma estratégia para aumentar a pena para as “carícias”, depois retomar o sentido anterior da palavra “estupro” e aumentar a pena para esse delito, e assim infinitamente, até conseguirem uma pena de morte, caso um dia essa insanidade venha a existir no Brasil.

Amanhã, podemos acordar e descobrir que um beijo na boca, em determinadas situações, é estupro. Ou será que isso já acontece?

E parece que ninguém está vendo os excessos e as insanidades do poder, ou dos poderes, que nos governam, decidindo o que é e o que não é um estupro.

Então, sempre duvide do discurso das pessoas; pois uma palavra que significava algo, até bem pouco tempo atrás, pode significar outra coisa bem diferente hoje ou amanhã. Cuidado com seus atos e suas palavras.

Acho que agora entendo aquela frase, bíblica, se não me engano, que diz: “Orai e vigiai!”.

Warley Matias de Souza.

domingo, 11 de abril de 2010

Julgamento. O show!

Bem-vindos ao Brasil! Neste país, até a justiça vira espetáculo.

Faz alguns dias, houve um julgamento. Pessoas viajaram longas distâncias para estarem presentes diante do tribunal, como tietes alucinadas querendo ver o ídolo. Mas dessa vez, não eram ídolos, eram réus.

À imprensa coube a triste tarefa de transmitir o show, os bastidores, os detalhes sórdidos, a indignação de um povo que não conhece o recato diante da dor.

Diante do tribunal, havia “cidadãos de bem”, assassinos em potencial, dispostos a linchar, se a polícia deixasse, os acusados e odiados por um povo que adora perdoar.

A imprensa, proibida de filmar o espetáculo, narrava os detalhes, até uma lágrima vertida do olho do réu ou de um jurado cansado era noticiada.

Numa entrevista com um desses seres estranhos que foi assistir ao espetáculo, uma jovem disse, com um sorriso, que estava ansiosa para entrar no tribunal, que seria muito emocionante. Como se fosse ver um filme ou uma peça teatral, como se os réus não fossem pessoas, mas personagens, não fossem gente, mas peças de xadrez.

Show! Lágrimas, revolta, medo, vingança e todos os bons elementos para compor uma bela trama para entreter o público sedento de sangue, suor e lágrimas.

Todos já sabiam, de antemão, o resultado daquele julgamento. Não, não houve fraude. É que a condenação parecia óbvia. Júri popular. O povo é imparcial? Levar pessoas comuns para julgar é tão cruel quanto permitir a pessoas sem formação o direito de clinicar.

E, com que prazer, no dia seguinte ao veredito, a imprensa encheu sua boca há dias ansiosa naquele “os assassinos”, deixando para sempre de lado aquela palavrinha sem sal, que parecia não significar muito: “acusados”.

E diante do triste show, as perguntas. Com exceção dos alunos de Direito, que necessitam presenciar situações assim, que sentimento leva pessoas comuns a percorrerem longas distâncias para assistirem ao julgamento de alguém? Indignação? Não, ignorância é a palavra correta, falta de noção da realidade, para não falar da morbidez de muitos.

E por que tanta cobertura da imprensa? Crianças morrem todos os dias, são assassinadas de formas que só a crueldade do ser mais sádico pode imaginar, e são esquecidas na falta de indignação da miséria.

E onde está a imprensa diante desses assassinatos? Está cobrindo um, apenas um, para deleite de seu público sedento de espetáculo.

Quando as pessoas vão entender que a justiça não é um clamor insano e desvairado, mas um ato de recolhimento e razão? A justiça não é vingança, mas um ato de equiparação, de esclarecimento. A justiça não deve ser feita com prazer ou emoção, mas com razão, respeito e dignidade.

Mas é difícil fazer esse povo compreender isso, um povo que é roubado todos os dias e não se mobiliza para tirar os governantes corruptos do poder, mas faz caravanas para pedir a cabeça de alguém, que nem tem dívidas com esse povo, mas com outras pessoas.

E quando a imprensa vai aprender a separar o público do privado? Aquele era o momento de uma família e não do Brasil.

O povo fez festa diante da condenação. Isso mesmo, comemore, tenha a ilusão de que a justiça existe e amanhã negue a esmola para a criança pedinte, negue, pois para você a morte lenta daquele pobre animalzinho perambulando pelas ruas é o mesmo que nada, pois a justiça só é feita para alguns.

Warley Matias de Souza.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Muito barulho por nada!

Num telejornal, deram a notícia de que a Justiça havia proibido a publicação de fotografias de um ensaio fotográfico em que uma ex-modelo estava em situação “desrespeitosa” com seu filho de quinze anos.

Havia também um vídeo, uma espécie de making of do ensaio, transmitido pela emissora, com aquelas tarjas nebulosas que escondem o que não deve ser mostrado. A mãe, com os seios de fora, escondia-os atrás do braço do filho, para tirarem as fotografias. Em um momento, ela beija o filho na boca, prolongadamente. E não pude ver o beijo por causa da tarja. Mas tive a infelicidade de ver a cara de reprovação da apresentadora moralista. Tive asco, não do vídeo, mas da apresentadora.

Fiquei curioso, o beijo devia ser de língua. Procurei na internet. E pude ver o beijo tão condenado pelos moralistas hipócritas. Não havia língua! Apenas a boca de uma mãe encostada na boca de um filho, ambas fechadas, unidas por um tempo. Depois, o filho, carinhosamente, beija sua mãe no rosto.

E no site em que vi o vídeo, uma zinha moralista, que havia postado o beijo escandaloso, dizia que aquilo era bizarro. Bizarra, sinceramente, é uma mulher que faz tal comentário, que não sabe diferenciar um beijo ingênuo de um beijo de língua. Puxa vida, será que ela nunca deu um beijo de língua para saber a diferença?

Ai, estou perdendo a paciência com esses moralistas. Infelizmente, eles nascem e se reproduzem como ratos de esgoto. Estamos perdidos.

E fico pensando por que a Justiça perde o seu tempo condenando fotografias que não podem causar nenhum dano a ninguém, como se já não houvesse processos demais para serem analisados. Como diz uma amiga: “Socorro!”.

Além disso, era um ensaio fotográfico. Ou seja, era ficção! Não eram fotografias retratando a realidade. Um ensaio sensual, e daí? Ficção!

Ah, só para concluir. Quanto aos seios da mãe, escondidos atrás do braço do filho, nada de mais. Todos nós que tivemos uma mãe, muito provavelmente, fomos amamentados pelos seus seios, o nosso contato com os seios de nossas mães, pelo menos para pessoas sem problemas sexuais, é algo banal, não sentimos tesão pelos peitos de nossas mães. Mas os moralistas devem sentir; afinal, se ficam assim tão incomodados...

Warley Matias de Souza.

sábado, 27 de março de 2010

Telemarketing

Quando o telefone toca, estremeço. De novo aquela voz, quase sempre com sotaque paulista: “Eu gostaria de falar com o Senhorrr X”. E, se você diz que está, prepare-se para ser firme ao dizer “não”, porque, para alguns, “não” significa “talvez”. Mas sejamos firmes, não mal-educados. Os pobres coitados estão trabalhando, ganhando o pão de cada dia. E que trabalho desumano! Ficar ali, tenso, tentando convencer alguém a adquirir um produto que a pessoa não quer adquirir, pois, se quisesse, ela ligaria, não precisariam ligar para ela. E ser maltratado pelo grosso ou pela grossa do outro lado da linha e não poder nem mandar um “Vai se foder, seu filho da puta mal-educado!”. É, um operador de telemarketing tem grandes chances de morrer cedo, um infarto fulminante do miocárdio, ocasionado por tanto estresse acumulado. É bem provável que as condições de trabalho desses infelizes sejam a causa de tantas vagas para esse tipo de emprego. Também pudera, ninguém deve esquentar cadeira. É claro que há os maníacos, aqueles que sentem certo prazer em ser operador de telemarketing, que têm o dom. Difícil acreditar; mas existem essas pessoas estranhas.

O operador de telemarketing me lembra o boia-fria. Pode parecer que são duas funções totalmente diferentes. Mas a maioria das pessoas concorda que o trabalho do boia-fria é desumano, apesar de essas pessoas não acharem justo que as máquinas substituam a força de trabalho humana, aquela lengalenga de sempre. Mas trabalho de boia-fria não é trabalho para gente, é desumano demais. A esperança é que esse tipo de trabalho seja extinto, que as máquinas tomem conta. Pois boia-fria não vive, sofre.

Um dia também perceberão que o trabalho de operador de telemarketing também é desumano, que não é trabalho para gente. Mas muitas pessoas já terão infartado, pirado, se matado, surtado geral.

Quando penso no trabalho do boia-fria e do operador de telemarketing, fico deprimido. Pois é muito triste. É incrível como nossa sociedade tem tanta habilidade para criar trabalhos que fazem o homem sofrer. É, parece que nossa sociedade é governada pelo sadismo. Masoquismo nem se comenta, pois temos uma atração pelo sofrimento, e até alimentamos certa competição entre nós para ver quem sofre mais. Aliás, sofremos desde o primeiro momento de nossas vidas, quando abrimos o berreiro ao nascer, nosso primeiro pronunciamento na vida.

Boia-fria e operador de telemarketing, duas funções tão díspares e tão iguais, uma pode aleijar o corpo, a outra pode aleijar a alma; se uma agride por fora, a outra agride por dentro. Subempregos para pessoas que não têm muita opção. Pois ninguém que tenha o mínimo de senso da realidade sonha em ser um operador de telemarketing ou um boia-fria, a não ser algumas crianças filhas desses desventurados, que, na sua ingenuidade, querem seguir o caminho de seus pais, até descobrirem que, na vida, às vezes, não temos escolhas.

Acho que foi Aristóteles quem disse que medo e compaixão andam juntos. Pois nos compadecemos porque sabemos que podemos, nós ou nossos seres queridos, ter de passar por determinadas situações. Ou seja, só sentimos compaixão quando nos identificamos com o outro. O que explica o motivo de pessoas que sempre tiveram tudo na vida não sentirem dó de ninguém, pois não acreditam que elas mesmas possam passar por alguma situação desagradável algum dia, não têm medo.

E são essas pessoas ignorantes que destratam os pobres operadores de telemarketing, como se eles fossem inimigos, sem pensar que elas, seus filhos ou amigos podem, amanhã, estarem naquela função, sofrendo as mesmas pressões e humilhações. Portanto, a compaixão vem da consciência, consciência de que tudo é possível. É, você pode vir a ser um operador de telemarketing um dia.

O melhor que você tem a fazer é atacar o alvo certo, ou seja, a empresa que te incomoda com as ligações. Por exemplo, há bancos que nunca me terão como cliente. Quando os consumidores se tornarem mais críticos e menos consumistas, talvez o serviço de telemarketing acabe, finalmente. Oxalá!

Talvez um dia a nossa sociedade doente pare de alimentar o sofrimento e, finalmente, comece a valorizar o prazer.

Warley Matias de Souza.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O PNDH-3

Nos últimos dias, tem havido uma intensa discussão em torno da aprovação, pelo presidente Lula, do PNDH-3, o Programa Nacional de Direitos Humanos, um documento de 228 páginas disponível no site http://www.sedh.gov.br/, para os interessados em lê-lo na íntegra ou parcialmente.

A “população LGBT”, citada assim no documento, é contemplada por todos os direitos há muito tempo reivindicados pelo movimento gay.

A questão dos direitos humanos referentes ao sistema carcerário brasileiro também parece perfeito no papel, mostrando que ainda existem pessoas com bom senso.

Um ponto polêmico, no entanto, está na página 100: “Desenvolver mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União”.

Isso se justifica se pensamos que vivemos em um país com grande diversidade religiosa e que a ostentação de símbolos pode incomodar ou ofender algumas pessoas, além de influenciar outras. Um exemplo disso são os evangélicos, que não creem em imagens, como os católicos. Não seria ofensivo, ou incômodo, para esses evangélicos, serem obrigados a conviver com esses símbolos nos estabelecimentos públicos? Além disso, pensando diretamente nas escolas, não é uma forma de violência, ou influência, obrigar os alunos a terem contato com símbolos religiosos que vão de encontro às suas e às crenças de seus pais?

A verdade é que estamos acostumados com uma forte influência e dominação da Igreja Católica, que, por muito tempo, por meio da ostentação de seus crucifixos e imagens, nos estabelecimentos públicos, vem marcando seu território. É claro que isso não é percebido, conscientemente, por todos nós, muitas vezes nem por aqueles que ostentam esses símbolos; mas a dominação existe, não podemos negar. Porém, será justo impedir tal tipo de ostentação? Não estaríamos, assim, atacando a liberdade de expressão? É uma discussão que deve ser feita. No entanto, o que está em jogo não é a livre expressão religiosa; mas o domínio e a influência exercidos há séculos pela Igreja Católica.

Contudo, o ponto mais polêmico é mesmo a Diretriz 22, intitulada: “Garantia do direito à comunicação democrática e ao acesso à informação para a consolidação de uma cultura em Direitos Humanos”.

Da página 164 até a página 167, podemos encontrar os seguintes itens:

Objetivo Estratégico I: Promover o respeito aos Direitos Humanos nos meios de comunicação e o cumprimento de seu papel na promoção da cultura em Direitos Humanos.
Ações Programáticas:
a) Propor a criação de marco legal regulamentando o art. 221 da Constituição, estabelecendo o respeito aos Direitos Humanos nos serviços de radiodifusão (rádio e televisão) concedidos, permitidos ou autorizados, como condição para sua outorga e renovação, prevendo penalidades administrativas como advertência, multa, suspensão da programação e cassação, de acordo com a gravidade das violações praticadas.
b) Promover o diálogo com o Ministério Público para proposição de ações objetivando a suspensão de programação e publicidade atentatórias aos Direitos Humanos.
c) Suspender patrocínio e publicidade oficial em meios que veiculam programações atentatórias aos Direitos Humanos.
d) Elaborar critérios de acompanhamento editorial a fim de criar um ranking nacional de veículos de comunicação comprometidos com os princípios de Direitos Humanos, assim como os que cometem violações.
e) Desenvolver programas de formação nos meios de comunicação públicos como instrumento de informação e transparência das políticas públicas, de inclusão digital e de acessibilidade.
f) Avançar na regularização das rádios comunitárias e promover incentivos para que se afirmem como instrumentos permanentes de diálogo com as comunidades locais.
g) Promover a eliminação das barreiras que impedem o acesso de pessoas com deficiência sensorial à programação em todos os meios de comunicação e informação, em conformidade com o Decreto nº 5.296/2004, bem como acesso a novos sistemas e tecnologias, incluindo internet.
Objetivo Estratégico II: Garantia do direito à comunicação democrática e ao acesso à informação.
Ações Programáticas:
a) Promover parcerias com entidades associativas de mídia, profissionais de comunicação, entidades sindicais e populares para a produção e divulgação de materiais sobre Direitos Humanos.
b) Incentivar pesquisas regulares que possam identificar formas, circunstâncias e características de violações dos Direitos Humanos na mídia.
c) Incentivar a produção de filmes, vídeos, áudios e similares, voltada para a educação em Direitos Humanos e que reconstrua a história recente do autoritarismo no Brasil, bem como as iniciativas populares de organização e de resistência.

A princípio, até parece bom. Afinal, seria interessante que não existissem mais aqueles quadros visivelmente homofóbicos de alguns programas de humor da televisão brasileira; como, por exemplo, um que está no ar atualmente, em que um personagem gay tenta todo o tempo esconder da mãe a sua preferência, apesar de ser visivelmente efeminado, e a mãe também parece evitar ouvir o que ela já sabe. A homofobia se manifesta quando o personagem lança um de seus bordões, dizendo que a mãe torceu-lhe o pepino, “mas do lado errado”. A palavra “errado” mostra bem o preconceito embutido no discurso. Mas, se alguém for comentar isso com o humorista ou o roteirista, dirão que não, que “o riso nasce da dor”.

Além disso, quantas vezes já não vimos quadros de humor em que o personagem gay é sempre retratado como sendo um pervertido que só pensa em sexo, que só pensa no macho? Seria bom saber que isso não mais existiria na televisão brasileira.

Por outro lado, estariam também tais restrições direcionadas às telenovelas? De repente, um personagem homofóbico seria proibido, impedindo a ficção de representar a realidade. Isso seria assustador.

A censura, em si, é algo assustador. Ainda mais se pensamos que, muito provavelmente, o responsável (ou responsáveis) pelo veto não será isento e tampouco consciente o bastante para julgar o que deve ou não ser veiculado. Aliás, falta no documento uma explicitação mais clara referente ao que é considerado violação de direitos humanos na mídia.

Para mim, mostrar a imagem de acusados nos telejornais, por exemplo, é violação de direitos humanos, como explicitei em meu artigo intitulado “Julgamento sem juiz”. No entanto, não haveria outros mecanismos de o Estado controlar isso, como por exemplo, promover a criação de leis específicas referentes a esses assuntos?

Além disso, o controle, a censura, não poderia se estender futuramente também a produtos culturais como filmes, peças de teatro, músicas e livros? Pois o que o documento quer dizer com a palavra “mídia”? Afinal, se censurar a imprensa é algo abominável, censurar obras de arte é um crime.

Acho que o documento é bem-intencionado; mas, nesse caso, parece-me equivocado, pouco amadurecido. O que é extremamente perigoso, pois os limites entre a liberdade e o autoritarismo são muito tênues. Acho que, no mínimo, deveria haver mais clareza em relação à Diretriz 22.

E, por fim, não posso deixar de comentar as reações de grupos religiosos ao documento. Para variar, estão revoltados com o fato de o documento dar direitos à “população LGBT”. É incrível, e assustador, como esses grupos se comportam, numa guerra declarada, numa cruzada contra os gays, um ódio explícito e feroz. Parece que elegeram essa “população” para destilar seu ódio. Afinal, parece que as religiões não sobrevivem sem inimigos, estão sempre à procura de um bode expiatório, de um anticristo, de um Lúcifer a ser derrotado, para reafirmarem o próprio poder.

Aqueles grupos que se sentem prejudicados com algum item do documento devem protestar, é assim que se constrói a democracia. Mas grupos quererem prejudicar outros grupos, aí é o cúmulo da ignorância e, por que não?, da maldade.

Enfim, qual o significado real desse documento? Provavelmente tem o mesmo peso da Constituição e da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que sempre podem ser usadas pela Justiça na defesa de direitos dos cidadãos. O documento configura-se, na verdade, em um decreto, orientações que devem ser seguidas, podendo algumas delas evoluírem, adquirindo o status de lei em alguns casos. De qualquer forma, a Declaração Universal dos Direitos Humanos não consegue impedir a tortura ou a fome, não consegue impedir todas as mazelas mundias, como a nossa Constituição também não, sendo, muitas vezes, desrespeitada. No entanto, o documento é um avanço, pois começa a promover a humanidade em nosso país, apesar da ambiguidade em torno de uma possível “censura”, um fantasma que sempre paira sobre todos nós e que, esperamos, não se fortaleça.

Esse documento fala de todos nós. Por isso, todos deveríamos lê-lo, na íntegra ou mesmo partes dele. Inclusive o presidente Lula deveria lê-lo também.

Warley Matias de Souza.

sábado, 15 de agosto de 2009

A sonda

O Sr. X, meu pai, num de seus exames de rotina, descobriu que precisava passar por uma cirurgia, pois tinha algo chamado "Hiperplasia Benigna da Próstata". O que acontece é que a próstata aumenta de volume, obstruindo a passagem da urina.
Depois de esperar por mais de um ano, o Sr. X fez a cirurgia pelo SUS, num hospital em Belo Horizonte. A cirurgia foi feita numa sexta-feira, sem corte, a laser. E no sábado, depois de pegar um ônibus e dois táxis, ele já estava em casa, com uma sonda, que deveria, segundo recomendações médicas, ser retirada na segunda-feira “em um posto de saúde mais perto de sua casa”.
Na segunda-feira, o Sr. X, com sua ingenuidade, seguiu então até o “posto de saúde mais perto de sua casa” para ouvir que não havia ninguém “preparado” para retirar uma sonda (E quem estaria preparado para um trabalho tão complexo!), que fosse ao hospital municipal de sua cidade, onde foi orientado a procurar o pronto-socorro da mesma cidade, onde soube que devia dirigir-se a um posto de saúde de um bairro distante.
Nesse posto, já imaginando que teria de viajar até Belo Horizonte para retirar aquela simples sonda, ele preencheu uma ficha e esperou “para saber se seria atendido”. O posto estava cheio, muitas pessoas com máscaras, suspeitas de gripe suína, ou, para não acabar com o comércio de carne de porco, a influenza A (H1N1). E, enquanto esperava, muita gente chegava, pois parecia ser o único lugar, da rede pública de saúde, numa cidade de quase 200.000 habitantes, que podia atender alguém.
Por fim, retiraram-lhe a sonda. E ele, afortunadamente no carro de seu genro, voltou para casa, em companhia de uma senhora de 70 anos e sua filha, que, pela falta de ambulâncias, pedira uma carona para levar dali sua mãe com pneumonia e dificuldade para respirar.
E agora o Sr. X está repousando, aliviado, sem sonda, e urinando como um menino, e torcendo para que aquela senhora tivesse apenas pneumonia, não uma gripe temida e indesejada. E à noite, ele reza, para que Deus o proteja e a todos os (des)amparados pelo SUS. Amém.
E, enquanto ele dorme, sonhando que Deus existe, uma voz ecoa pelos quatro cantos do Brasil, dizendo, enfática:
— Estamos preparados!
E o Sr. X sorri, enquanto dorme. Só não se sabe se seu sorriso é ingenuidade ou a mais pura ironia.
Warley Matias de Souza.